Elas
- marietamadeira
- 11 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de nov. de 2023
Acordou de um sono profundo e sonhos perturbadores. As pálpebras pesavam, resistiam a enxergar na penumbra. Que horas seriam? Que dia? Ao se perceber naquele mesmo quarto, preferiu não ter acordado. As paredes cor de nada, a cortina pesada, grossa, áspera ao toque, com suas flores desbotadas. No seu sonho, estava numa aldeia, onde tudo era marrom. Telhados de palha, chão batido. Tiros, pessoas correndo, mulheres abrigando crianças. Poeira. Tentou fugir com outras pessoas, num carro que destoava do cenário. Alcançaram uma estrada estreita até se depararem com um corpo estendido, que mais parecia uma estátua de barro e capim. Só viam seu dorso, de lado, uma perna cruzada sobre a outra, obstruindo a passagem. Atropelaram aquilo, desesperados. O corpo cedeu facilmente, como se fosse de terra molhada. Ana olhou para trás e viu que a cabeça era de um manequim de loja. Foi então que acordou, o coração disparado, em fuga. Então estava livre? Salva? A cabeça pesava - tinha tomado a medicação? O quarto abafado sufocava. Que horas seriam? Não havia qualquer som do lado de fora, o que lhe provocava um misto de alívio e angústia.
Tirou do bolso o pequeno amuleto de pedra. Passava ele de uma mão pra outra, sentindo sua textura: a superfície lisa que trazia prazer ao toque, e a outra, cheia de pequenas rugas e pontas, que a deixavam arrepiada. Enfim distraída, imaginava o que seria aquela pequena escultura inacabada: um tatu sem nariz nem rabo, com uma pata a menos? Um ser de outra galáxia, que andava sobre três pés? Lembrou de quando brincava de ver formas nas nuvens com seu pai. Um doce raro de cor esquisita? Fome. Não lembrava quando tinha comido pela última vez. Nem o quê. Silêncio.
Será que suas aulas já tinham começado? Saudades da Tina e dos seus cabelos verdes. Talvez ela voltasse com eles azuis, ou roxos. Gostava desses tons, dizia que contrastavam com a cor dos seus olhos. Era engraçada, e muito fofa. Tinha um jeito de rir que sempre fazia Ana rir junto, mesmo que não achasse graça. E a letra, e os desenhos que ela fazia! Era super criativa. Ana se dava melhor com as palavras do que com os desenhos, e Tina gostava de ouvir seus sonhos mirabolantes. Tinham até um plano: Ana inventaria uma história que Tina ilustraria. Seria o máximo. Seria perfeito, não fosse o erro terrível que tinham cometido, contando pra Cayla. É que a Cayla se achava o máximo, achava que tudo dela era melhor: as notas, as ideias, a irmã Mayla. Talvez ela quisesse mesmo era ser igual a Mayla, mas não conseguia. Porque a Mayla, sim, era o máximo. Namorava a Dora, a guria mais bonita do colégio. E fazia dança contemporânea. A Ana não sabia bem como era dança contemporânea, mas a Cayla tinha prometido conseguir umas entradas pra próxima apresentação da Mayla. Daí quem sabe a Ana entenderia como é a tal dança. A Cayla dizia que sabia dançar também, e que a história que elas inventassem tinha que ser um musical, pra ela poder dançar. Mas quem sabe escrever um musical? Não era esse o plano! Definitivamente, tinham cometido um erro. A Cayla ia dificultar tudo. Mas não podiam deixar Cayla de fora, ainda mais agora que tava tão esquisita. Depois de faltar um monte de aulas, ela voltou diferente. Parada. Ouviram dizer que tinha tomado um monte de remédios porque queria morrer. Tentativa de suicídio, falaram. Como iam deixar a Cayla de fora? Impossível. Tentativa de suicídio. Coitada da Cayla, que ideia triste, ela teve. Mas também, com esse nome, “Cayla”! Porque a mãe dela tinha posto esse nome nela? Mayla já era ruim, mas Cayla conseguia ser pior. Como Ana tinha sorte com seu nome. Já tinha até agradecido à mãe. A Tina também tinha sorte, se bem que Tina parecia mais um apelido do que um nome, mas era melhor que Cayla. Bem melhor. Precisava pensar numa história logo, e assim o tempo passaria mais rápido. Mas não via nenhum caderno, nenhuma caneta. Nenhuma ideia. Seu cérebro oco.
Podia começar com palavras. História, palavras com h: hotel, Helena, hábito…que difícil, o h. Palavras com p de pedra: pulga, penico, promessa, perdida, polenta, pão, pamonha, pelada, pêssego, ponte, porta, pai…com m: mãe, maria, morena, melancia, mosquito, meleca, mastodonte, mastigar, moeda, mula, morro, maluca. Maluca, louca, doida, pancada, doente. Suicida. O que será que a Cayla pensou quando tomou os remédios? E que remédios ela tomou? Será que a Cayla era louca? Será que ela também era louca, pensando naquelas palavras todas? Por que tava pensando nisso? Por que não lembrava como tinha ido parar naquele quarto, e não sabia que quarto era aquele? Será que, na verdade, tava numa clínica? Ouviu que a Cayla tinha ido pra uma clínica. Como será que era uma clínica? Parecida com esse quarto? Não ouvia nenhum som. Nada. Onde estavam suas coisas? Tinha lembranças de ter gritado, de ouvir muitas vozes que pareciam vir de longe, muito longe. Talvez tivesse caído, mas era tudo tão nublado. Ana banana. Como detestava quando faziam essa rima com o nome dela. Pelo menos Cayla não rimava com nada. Ana, banana. Banana, bananeira, tomate, tomateiro, t de Tina, m de Mayla, c de Cayla, cai-cai balão... Brincadeira mais sem graça, essa.
E a sua mãe, onde estaria? Será que não tinha sentido falta dela? Será que sabia onde ela tava? Será que tinha levado ela pra clínica? Não, ela não faria isso. Não a sua mãe, não sem explicação. A mãe adorava explicar as coisas - até demais. Arriscou dizer mãe. A voz saiu toda esquisita. Um pouco mais forte: MÃE. A voz não parecia a dela. Queria chorar, mas não conseguia. Segurou firme a pedra, deixando a parte mais lisinha, mais confortável, aderir à palma da mãe. Da mão. Respirou, como a mãe sempre dizia que fizesse quando estivesse aflita. Explicava que respirar ajudava a se acalmar. Assim como chá de melissa, ou de camomila. Ou perfume de lavanda. Pensou em todas aquelas coisas juntas. Que confusão.
- Mãe! MÃE!! MANHÊEEE!!
Ouviu os latidos da Mel. A Mel! As patinhas preguiçosas no assoalho.
Silêncio. Depois, passos de chinelo que se aproximavam cada vez mais. Sua mãe abriu a porta do quarto, com cara de sono:
- Oi, Ana. Tu me chamou?
- Chamei.
- Tudo bem?
- Tudo, sim.
Sorriram uma para a outra, cúmplices.
- Boa noite, filha.
- Boa noite, mãe.
- Dorme bem.
- Tu também, mãe.
fevereiro de 2022
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