A filha perdida - para além da maternidade
- marietamadeira
- 29 de mar. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2023
(escrito em parceria com Barbara Raulino)
Leda é uma mulher de 48 anos, professora universitária, que viaja de férias - sozinha - para uma praia. Nesse lugar que lhe parecera sossegado, onde pretendia ler e trabalhar, ela encontra uma família numerosa e barulhenta, que passa a ocupar sua atenção. Dentre os familiares, há uma mulher jovem com sua filha pequena, que traz sempre consigo uma boneca. Observar a interação entre mãe, filha e boneca faz Leda lembrar-se de sua juventude, do cuidado com suas próprias filhas, agora adultas. Numa manhã na praia, a menina Elena perde-se da mãe, e em seguida perde sua boneca. Leda encontra a menina e a leva para a família. No entanto, a pequena desespera-se por não encontrar sua boneca, chorando impiedosamente. Seguem-se buscas pelo brinquedo, que descobrimos ter sido pego por Leda, num ato de difícil explicação.
Esse é o enredo do romance A Filha Perdida, de Elena Ferrante, publicado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca. No último dia 31 de janeiro estreou na Netflix o filme baseado no romance, dirigido por Maggie Gyllenhaal, que revelou ter se sentido contemplada com a narrativa sobre maternidade que encontrou ao ler o livro, a ponto de querer dirigi-lo em sua estreia no cinema. Desde que foram lançados, muito tem se escrito sobre o filme e também sobre o livro. Este é um dos efeitos provocados por Elena Ferrante: ela nos põe a escrever. São muitos os trabalhos produzidos em torno de sua obra.
A escrita de Elena Ferrante tem o poder de fascinar e perturbar leitores, principalmente leitoras. É difícil encontrar uma mulher que não se comova, ou se angustie, ao lê-la. Em se tratando de A filha perdida, podemos dizer que é um romance em que a perturbação fica situada no tema da relação mãe e filha. A pergunta: “quem é, afinal, a filha perdida?” resta ao final da narrativa. Pois uma mãe deve ter, antes, sido uma filha. Como diz a escritora: “uma mãe não é nada além de uma filha que brinca.” São muitas as possibilidades interpretativas em torno do tema, os simbolismos utilizados são vários. Mas gostaríamos de dar atenção a algo que também aparece nessa história, talvez de forma mais sutil - mas não imperceptível. Principalmente ao reler o livro, ou rever o filme.
Logo em uma das primeiras cenas, Leda chega ao apartamento que alugou para aqueles dias, e é acompanhada por Lyle, o zelador. Ele entra e liga o ar condicionado, mesmo quando ela anuncia que prefere deixar as janelas abertas porque gosta da brisa da rua. Essa cena produz duas perguntas: por que Lyle saberia melhor que Leda em qual temperatura ela gostaria de dormir? E por que, mesmo diante dela anunciar sua preferência, ele faz o que ele próprio acha melhor?
Talvez seja exagero reparar nesse gesto de Lyle, que afinal estava sendo gentil. Gentil, sim, mas também invasivo? Essa é apenas a primeira de uma série de cenas que mostra algo que se repete ao longo do filme: a dificuldade de Leda em ser ouvida em suas escolhas. A presença dessas cenas - e aqui lembraremos algumas - obviamente não são casuais, já que o lugar das mulheres é um tema caro a Ferrante. As cenas não são casuais, muito pelo contrário. Podemos dizer que são causais. Porque a personagem Leda causa. Sua presença, suas escolhas das mais simples às mais ousadas, parecem arrogantes aos olhos de muitas pessoas. Elas causam: incômodo.
Em uma manhã, Leda está nadando no mar silencioso, quando a praia é invadida pela família barulhenta, que vai se apossando de todo o espaço. Depois, enquanto está acomodada na praia, escrevendo, pedem que ela mude de lugar para que eles possam ficar também onde ela está sentada. Ela nega, diz que está confortável ali. A mulher que se dirigiu a ela, e os dois homens que a acompanham, ficam muito surpresos e incomodados com a falta de obediência de Leda e perguntam a ela: o que custa? Quanto custa a uma mulher ceder seu lugar? Por que espera-se que uma mulher prontamente ceda? E por que é ELA que tem que ceder? Note-se que eles têm toda a praia para se refestelar, mas querem estar ali, onde a solitária está. Querem que ELA saia do SEU lugar. Afinal, ela está sozinha. E é uma mulher.
Talvez essa questão pareça irrelevante num primeiro momento, mas há perguntas que podem nos ajudar a pensar no porquê ela é importante: se Leda estivesse com um homem na praia, será que pediriam que mudassem de lugar? E se fosse um homem sozinho? A situação seria diferente? Por que é tão fácil pedir que uma mulher sozinha mude de lugar, do SEU lugar? Leda não quer ceder seu lugar - e não por intransigência. Ela sabe o que foi preciso enfrentar para conquistá-lo, e o quanto lhe custou mantê-lo. Nessa simbólica cena da praia, não é a primeira vez que sustenta uma escolha, e sua determinação e coragem perturbam muita gente.
Numa próxima cena, Leda está jantando sozinha no restaurante e é interrompida por Lyle, que impõe sua presença e pergunta algumas vezes se ela precisa de algo. Por que ele acha que ela precisaria? Nessa ocasião, Leda tem que pedir que ele se retire para que ela possa terminar de jantar. Lyle também insinua que está sempre de olho nela “eu te vejo mesmo quando você não me vê”, diz sugerindo cuidado, e controle. Uma mulher de férias sozinha precisa ser controlada? Essa questão nos lembrou uma passagem do livro Maternidade, de Sheila Heti: “Há algo de ameaçador em uma mulher que não está ocupada com os filhos. Uma mulher assim provoca certa inquietação. O que ela vai fazer então? Que tipo de problema ela vai arrumar?”
Existem outras cenas em que a presença de Leda causa incômodo, como por exemplo quando vai sozinha ao cinema, ou quando está dançando numa festa e logo é convidada a se retirar. Esse incômodo provocado por Leda também nos remeteu à ideia de que uma mulher sozinha pode ser vista como uma mulher perdida, como o título de alguma forma sugere: uma filha perdida, uma mãe perdida, uma mulher perdida? Interessante pensar que “perdida” pode também referir-se à perdição, às “mulheres perdidas” não são bem-vindas nos mesmos ambientes que as famílias. Elas são perigosas, são livres.
Assim, para além das questões sobre a maternidade, o romance toca no tema do que é ser mulher. Os tantos sentimentos que essa história desperta - identificação, angústia, perplexidade, inquietação - têm a ver com o lugar de onde Elena Ferrante escreve: o lugar de uma mulher. Uma mulher que escreve sobre as mulheres. Essa escrita nos aproxima do assombro, esse vizinho que gostaríamos distante, mas que está logo ali. O assombro de ser mulher, de ser mãe, de não ser mãe, de ser filha. O tema é incômodo. Livro e filme são tensos porque esses temas ainda são tensos. É preciso olhá-los com os olhos bem abertos, e nos ocuparmos de tentar ouvir o silêncio que reina sobre eles. Ou melhor, sobre elas: as mulheres que quiseram falar, que quiseram fazer esse gesto singelo e poderoso de mudar de lugar.
Publicado em janeiro de 2022 no Medium de Barbara Raulino.
Comments