Caderno de memórias coloniais
- marietamadeira
- 2 de abr. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2023
de Isabela Figueiredo
Editora Todavia, 2018

Isabela Figueiredo conta-nos sua história nas páginas deste Caderno de memórias coloniais - conta como quem fala em análise: uma memória puxa a outra, e a história se faz. As imagens compõem essa história - há fotografias que se mesclam ao texto, e são maravilhosas, porque por vezes dizem mais do que as palavras. E olha que suas palavras dizem muito. Dizem da sua infância da menina branca na cidade de Maputo, em Moçambique, colonizada pelos portugueses. Dizem da filha de um homem racista mas bom e amoroso, a quem que ela amava demais. Dizem da menina que aprende a ler, e percebe assim poder pensar criticamente sua realidade.
"Esse milagre de ler, essa magia tão rápida no meu cérebro, como se alguém movesse uma varinha à distância ou soletrasse palavras misteriosas, desenfeitiçaram-me.
A partir dessa tarde de sábado, embora a minha prisão física não se alterasse, e os muros continuassem altos à minha volta, em todos os lugares, apossei-me da ferramenta com que escavaria minha liberdade."
O Caderno é imenso! Isabela escreve sobre si, e através de sua história problematiza questões importantíssimas como colonialismo, racismo, feminismo, infância, puberdade, sexualidade, abuso, religião. Sua escrita se dá nela mesma, e também em suas entrelinhas. É uma escrita que emociona, e podemos perceber a emoção dessa mulher ao escrever. É genuína.
"O colonialismo respirava-se com a poeira do dia que o meu pai trazia na roupa, quando chegava a casa, ao final da tarde. Não era apenas o poder, mas o que dele transborda: subserviência e medo. Nasci e vivi nesse mundo convulso de racismo e discriminação de toda sorte. "Grande novidade!", dirão. "Bem-vinda ao mundo real."
Tive a sorte, ontem, de conversar sobre esse livro no encontro do Pacto Literário - essa resenha é costura da minha leitura com o que ouvi dos querides leitores, e também da própria Isabela, que esteve conosco. Uma mulher sensível e que diz. Diz que não há pensamento sem arte e literatura. Diz de si, e da sua escrita. Choramos ao ouvi-la, mais de uma vez. Estávamos perplexes. Estávamos próximes. Estávamos emocionades.
Foi um presente, e sou muito grata ao Pacto. E a Isabela.
"Sou uma pedra mole. Não me façam perguntas. Leiam-me apenas."
Publicada em dezembro de 2021, no Instagram.
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