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Tomo conta do mundo

  • marietamadeira
  • 27 de mar. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de jul. de 2023

de Diana Corso

Editora Arquipélago - 2014




Querida Diana,


Aproveitei estes feriados de festas de fim de ano para ler teu livro Tomo conta do mundo – Conficções de uma psicanalista. Eu já conhecia muitas das crônicas ali publicadas, mas já aprendi que reler costuma provocar um novo efeito, trata-se de um reencontro, e os reencontros não são nunca os mesmos que os próprios encontros, primeiros.

Tentei inventariar os temas que percorrem, como as pequenas formigas, as páginas do teu livro: o infantil, a maternidade, o feminino, o masculino, as memórias, as mudanças que vivemos na contemporaneidade (como compreendê-las?), a tristeza, a alegria, as perdas, as separações, o amor. Isso sem falar nas referências a livros e filmes, que se tornam outros depois de ler o que pensaste e escreveste sobre eles. Algumas de tuas colunas fizeram muito sucesso, pelo menos entre as pessoas com quem converso, como é o caso daquela sobre as Mães de porta de escola! Que alívio promoveste para tantas mães com aquele texto, ao mostrar que todas nos sentimos insuficientes umas diante das outras – e ainda bem!


Em outras colunas invertes o sentido de verdades que muitas vezes tomamos como absolutas, para nosso próprio desconforto, como é o caso de Amor é... incompreensão. É quase uma unanimidade que precisamos compreender, compreender, compreender mais para amar – quando lembras que há também o lugar da incompreensão do amado, o inapreensível. E que pode ser interessante preservarmos esse lugar, para o bem da relação amorosa. Poderia comentar outras tantas colunas... mas esta minha carta/coluna ficaria longa demais!


Prefiro antes dizer que me impressiona tua generosidade. Não te inibes ao expor lembranças, intimidades até. Para uma psicanalista, isso não é pouco. Habituamo-nos à reserva, ao cuidado no revelarmos a nós mesmos publicamente – talvez até se possa dizer que isso seria, a priori, uma contra-indicação! Mas aí vem essa tua condição ímpar de mostrar a ti, que conheço também como amiga. Não te proteges do julgamento do outro, desde que cumpras teu ofício de nos fazer ver que somos feitos de defeitos, medos, inseguranças, egoísmos. Mesmo aqueles que admiramos padecem desses males – necessários, inefáveis. E nesse ponto surge algo do teu estilo de escrita, teu modo de colocar as questões: consegues afirmar e interrogar ao mesmo tempo – e penso que só podes fazê-lo justamente a partir dessa generosidade, pois se podes apontar a fragilidade do outro é porque te incluis, sem pudor, no rol dos frágeis.


Tua sensibilidade é também digna de nota, sensibilidade que não hesitas em acomodar como sendo efeito de uma atenção difusa que por vezes pode até te atrapalhar. És sensível ao que te rodeia, aos prédios em construção, aos sons, aos pequenos detalhes – cosas chicas para el mundo pero grandes para ti. E não seria esta característica essencial para nosso fazer analítico? A possibilidade de se ater a detalhes, às mínimas inflexões da voz, às cores, às memórias que parecem mais inocentes ou sem valor? Ao escrever, transmites ao leitor o valor das pequenas coisas, essas que podem parecer sem importância, mas que, sabemos bem, podem fazer toda a diferença numa história, numa vida.


Não posso encerrar sem mencionar a riqueza de teu ensaio sobre Virginia Woolf. Ele guarda uma particularidade muito importante por interessar tanto a leitores, a estudiosos da obra desta grande autora, quanto aos psicanalistas. Traçaste um percorrido histórico sobre o lugar da mulher na literatura, e a partir dele indicas um viés de leitura precioso do feminino, das particularidades de ser mulher, de conhecer a solidão e prestar-se ao que denominaste “ser lugar”. É um ensaio riquíssimo, e desenvolves um aporte teórico que pode muito auxiliar a escuta clínica, além de demonstrar uma vez mais que a literatura não cansa de ensinar aos analistas, que ela é indispensável para a compreensão do humano.


Por fim (e como se diz, “last but not least”) quero te agradecer. Sou tua afilhada analítica, devo muito, mas muito mesmo da minha clínica ao que aprendi contigo. Como se isso fosse pouco (e é tanto!), também aprendo contigo sobre o ofício de escrever, que não nos é fácil nem indolor. Seguindo teu rastro (as formigas...), também eu tento mostrar-me não só entre nossos colegas psicanalistas, mas a todo e qualquer leitor que tiver vontade de ler minhas palavras insuficientes, através das quais tento transmitir algo que possa interessar, sobre fatos singelos da vida cotidiana, um livro, um filme. Não teria ânimo para essa aventura se não estivesses ali, me precedendo, mostrando que isso é possível.


Sabes, Diana, tomas conta de uma fileira de formigas, sim. E cultivas a habilidade de encontrar em cada uma sua história, em cada história seus detalhes, em cada detalhe o que a formiga tem de melhor, de pior, de particular. Sou uma dessas formigas felizardas. Obrigada, sempre, por tomares conta do mundo!




Publicada em janeiro de 2015, no Jornal Sul21.

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