O Amor nos Tempos do Cólera
- marietamadeira
- 3 de fev. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 16 de jun. de 2024
por Gabriel García Márquez
tradução de Antonio Callado
Editora Record - 1985

"...e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
Graças ao clube de leitura Pacto Literário, nesse 2024 reli O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez. Minha primeira leitura foi em torno de 1985, eu amava ler os escritores latino americanos, a escolha foi em função disso. Foi o primeiro livro de Gabo que li.
Daquela primeira leitura, a única coisa que lembrava é que tinha acontecido durante um verão, na praia, em que saboreei o texto com vagar, e de ter ficado curiosa sobre aquela história de amor. Na releitura, percebi como a Marieta daquele verão estava distante da narrativa de Gabo - tão diferente da de hoje, passados quase 40 (!) anos daquele momento.
Lá o futuro era um tempo futuro, bem futuro, e inapreensível. Parecia-me ter todo o tempo do mundo pela frente, e tinha mesmo. Hoje meu tempo é outro, o futuro não é tão longínquo quanto antes - bem pelo contrário: conheço limitações que me eram desconhecidas, olho para a frente sem a certeza de que vou conseguir realizar o que gostaria, e às vezes pior: vejo com séria desconfiança que muitas coisas não vou poder realizar. E não me queixo, pois, em contrapartida, já conquistei muito do que sonhava, e diria que até mais e melhor. E há poucas sensações tão boas como a de olhar para trás e orgulhar-se do caminho percorrido, de sentir a serenidade que vem com essa mirada. Se há desconfianças quanto ao futuro, elas certamente não são as mesmas que tanto perturbaram a minha juventude.
Hoje só considero verdadeiros problemas os que são grandes e importantes. Os pequenos sei que tiro de letra. E caso não consiga, pouco importa, pois conheço sua pequenez. Do mesmo modo, festejo as pequenas alegrias como se enormes fossem (porque são). Sou grata aos dias sem dor e aos bons momentos, ainda que eles sejam efêmeros. Presto atenção às minhas vontades e percepções, pois afinal, se eu não estiver atenta a elas, quem mais poderia estar? Só eu, que habito meu corpo, posso saber dele. Minha paz é valiosa, meu silêncio e minhas risadas também.
Vejam que minha ideia era escrever sobre o livro de Gabo, que é um livro imenso. As digressões aqui também tem a ver com a potência do escrito, do quanto ele nos faz viajar na própria vida. O escritor passeia entre tempos e personagens com uma fluidez impressionante, descreve cenas e lugares de maneira que os vemos, sentimos seus odores e ouvimos seus ruídos. Seu texto é um bordado de palavras, e sem avesso, como nos disse hoje a Beth Leites. E à medida que o livro se encaminha para o final, percebemos onde o escritor queria chegar, e nos assustamos com sua capacidade de ter assim nos conduzido até lá. E só nos resta a conclusão óbvia: Gabo é um gênio.
Então, esse escrito (que já não sei se chamaria de resenha, ou crônica ou nenhuma das duas) vem para lembrar vocês de que sempre vale ler e reler Gabo. Preciso mencionar, no entanto, que é preciso um cadinho de tolerância com elementos do texto que são machistas e colonialistas, e fica a dúvida se esses traços seriam da pessoa do escritor, ou se ele aproveitou a oportunidade de apontá-los através da história, como crítica às características de nossa América Latina colonizada e machista. Possivelmente ambos. Pois assim somos: nem só bons nem só maus, mas sempre complexos e contraditórios.
Last but not least, meu muito obrigada ao Pacto, esse grupo de leitores/amigues/vizinhes que compartilha o amor pelos livros - e tanto mais.
fevereiro de 2024
Puxa, você disse tantas coisas que eu gostaria de falr. Adorei, que venham mais resenhas em 2024😘