O verão em que mamãe teve olhos verdes
- marietamadeira
- 9 de jun. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de fev. de 2024
por Tatiana Tîbuleac
tradução do romeno por Fernando Klabin
Editora Mundaréu - 2021

“Os olhos de mamãe eram minhas histórias não contadas”
Quero escrever sobre O verão em que mamãe teve olhos verdes, da escritora moldava Tatiana Tîbuleac, sem dar spoilers. Para situar minimamente, temos dois personagens principais: Aleksy (o narrador) e mamãe. Quando começamos a ler essa história, Aleksy é um adolescente rebelde e amargurado, e ele fala do quanto odeia mamãe.
“Os olhos de mamãe eram um erro”
Como o próprio título indica, trata-se de um verão – um verão definitivo que mamãe e Aleksy passam no litoral da França. A narrativa não é linear, posso dizer que a história daquele verão não é propriamente contada – mais que isso, ela é trazida pelo fluxo dos pensamentos do narrador, que avançam e retrocedem no tempo. Fluímos, impelidos por seu ritmo intenso. Não é como se pudéssemos “conhecer” a história, seus detalhes, sua cronologia. Nós a “percebemos” pelo depoimento de Aleksy, através da sua linguagem, da sua língua.
“Os olhos de mamãe eram conchas brotadas em árvores”
Tatiana é perspicaz na utilização de metáforas, muitas delas carregadas de graça irônica, que soam curiosas (daquelas que nos fazem levantar os olhos do livro). Sua escrita também é rica em imagens impactantes, que ora parecem conhecidas, acomodando-se com tranquilidade na memória, ora demoram a encontrar lugar. É um efeito interessante, que conforta e inquieta.
“Mamãe e eu ficamos deitados na plantação de girassóis – calados e aflitos, como flores abortadas. Voltamos para casa ao anoitecer, debaixo da chuva e unidos pela mão delgada de mamãe, cordão umbilical ainda por cortar. Mas eu não devia ter medo.”
Aleksy não devia ter medo, mas tinha, assim como nós também temos. Talvez o maior mérito dessa história seja sua capacidade de nos sensibilizar e afetar. As personagens são quebradas, como nós mesmos. Tatiana escreve na língua do inconsciente – uma língua crua que todos nós conhecemos, pois nela fomos concebidos, e ela permanece viva em nós, não importa o quão civilizados ou adultos tenhamos nos tornado. Talvez por isso minha sensação ao longo da leitura era de um encontro com a fragilidade: da narrativa, das personagens, a minha própria.
Esse romance dói de tão bonito.
Agradeço ao @pactoliterário por essa indicação de leitura, e por mais um encontro emocionante em torno da literatura.
junho de 2023
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