Ouço vozes
- marietamadeira
- 10 de out. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 5 de nov. de 2023
de Liliane Oraggio
Colmeia Edições - 2017

Quero falar sobre ouvir vozes. Ouvir vozes é um acontecimento na vida de sujeitos psicóticos, um sintoma que causa muito sofrimento. É também o ofício dos psicanalistas, dos psicoterapeutas, o meu ofício. O título do livro da Liliane Oraggio me capturou por sua sensibilidade de usar o nome desse sintoma conhecido para também designar algo que é da nossa prática clínica: passamos os dias de trabalho a ouvir vozes.
Ouço vozes traz uma série de recortes clínicos do trabalho de escuta de Liliane ao longo da sua formação como Acompanhante Terapêutica. Traz também sua escuta na sequência dessa formação, no seu fazer de AT acompanhando pessoas na capital paulista, transitando pela imensa urbe com aqueles que, por uma razão ou outra, têm dificuldade em fazê-lo. Na clínica encontramos com frequência o limite que o território aberto das cidades por vezes impõe, quando o espaço fora de casa se mostra ameaçador e intransitável. Lembrei da frase dos Saltimbancos, de Chico Buarque: “a cidade é uma estranha senhora, que hoje sorri e amanhã te devora”…
O interessante é que Liliane traz porções da clínica, fragmentos, alguns compostos de duas frases apenas, outros um pouco mais longos, mas de poucas páginas. O efeito dessa maneira de compartilhar a clínica é o de fazer pensar na própria clínica de maneira direta, preservando a força das ações e dos diálogos. À medida que eu lia, ia me lembrando dos tantos recortes que trago na memória, me ocorriam outras leituras de algumas cenas que também vivi. Isso sem o compromisso da elaboração de um caso clínico. A forma mais conhecida de apresentar a clínica é através da escrita do caso, com a demanda do paciente, sua história, as intervenções terapêuticas e as referências teóricas que amparam tudo isso. Ler a clínica como Liliane a apresenta é outra coisa.
A autora conta que seu primeiro contato com a escuta se deu através de seu trabalho como jornalista, quando fazia e transcrevia longas entrevistas, e as editava. Sua escuta com fins de escrita migra para a escuta com fins terapêuticos, mas ela não abandona a escrita (ou será que é a escrita não a abandona?). Assim, a escuta é essencialmente diferente,e essa mudança faz mudar também a escrita, que se mostra muito viva e cotidiana. É uma escrita que traz o leitor para perto da experiência clínica, essa que nos atravessa, que permeia nossos corpos enquanto acontece. Aí mora a riqueza desses registros: eles nos permitem testemunhar a experiência desse atravessamento.
Sabemos que o fazer clínico é solitário, e carecemos de exemplos, de oportunidades de ouvir outros casos que não os que acompanhamos, para apoiar e enriquecer nossa escuta. Nosso fazer de ouvidores de vozes. O livro de Liliane, as vozes que ela ouviu e generosamente nos traz, são muito bem-vindos.
P.S. Deixo aqui também a indicação de duas outras leituras que foram inspiração para a autora: os livros “À margem dos dias” e “À margem das noites”, do psicanalista francês J.B. Pontalis, com tradução de Lidia R. Aratangy (Primavera Editorial). Ambos trazem
fragmentos da clínica de Pontalis, tendo origem em notas escritas em seus “Cadernos íntimos”. As notas dos dias foram publicadas primeiro. Depois vieram as da noite, com sonhos e o colorido soturno da temática morte, entre outras.
outubro de 2022
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