Vingar
- marietamadeira
- 3 de abr. de 2022
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de jun. de 2023
de Danielle Magalhães
Editora 7 letras - 2021

Soube desse livro pelo título: Vingar. Fiquei curiosa pra ler a poesia da Danielle Magalhães. Na dedicatória, ela me escreveu:
que essa vingança te mova
a revolver a história
e começar
como quem nasce de novo.
Adivinhei, ali, o tamanho do livro que eu tinha em mãos.
Vingar é um verbo que costuma ser associado a algo ruim, mas essa acepção é por demais simplista. Vingar pode ser uma maneira de concluir algo para poder recomeçar. Não precisa ser uma ação dirigida a alguém, pode ser uma vingança em relação a uma dor que se viveu, a um revés da vida. Muitas vezes demanda tempo - dizem que "a vingança é um prato que se come frio". Às vezes a vingança acontece, o mundo dá suas voltas, girando implacável, e algo que um dia assombrou é relido e ressignificado. E nos percebemos vingados - podendo, então, recomeçar.
A poesia desse Vingar é forte. Danielle conta histórias duras, tristes; ao escrevê-las, vinga suas e outras dores. Nessas histórias, vai do Brasil ao Camboja. Vinga assassinatos, vinga extermínios, vinga esquecimentos. Vinga mortes e, assim, faz vingar a vida. Pois também dizemos que algo vinga quando sobrevive apesar de. Apesar dos infortúnios, das injustiças, das dificuldades, há escritas que vingam, há arte que vinga, há gente que vinga. Sempre haverá e isso nos anima a prosseguir nos tempos mais difíceis.
A @farandola.mariacristinamartins escreveu uma resenha linda do Vingar, na @revistatamarina, com o título: Poesia histórica vista de baixo. Depois dessa resenha, ficou mais difícil escrever aqui sobre minha leitura. Mas eu precisava escrever, pra contar da grandeza e da força dessa poesia, dessa poeta. Precisava fazer vingar a dedicatória dela. A vingança é melhor quando compartilhada - no silêncio ela fica só.
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"como explicar a uma criança
era uma vez uma escola
que virou uma prisão
um centro de tortura
e extermínio
era uma vez uma escola
que virou o lugar do genocídio
ainda hoje
vemos as marcas
de sangue no chão
haverá sempre
a imagem que falta
(...)
a cada vez
que brota
um trapo
que vestia um corpo
exterminado
a terra vinga"
Publicada em fevereiro de 2022, no Instagram.
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